• Marcello Portocarrero

SEPARAR JÁ!!!

Neste pequeno conto, escrito em 10 de novembro de 2.120, rememoro minha vivência, num país ditoso, com plena Liberdade de pensamento, idéias, ponderação em minhas opiniões, sem ser acusado de ser ignorante ou fascista, tolerante ou lunático, burguês ou proletário, onde temos Igualdade, afinal, não preciso mais ver projetos de distribuição de rendas, pois todos somos iguais, salários análogos, vida condigna, sem lamentar a miséria humana, ante a Fraternidade, no qual esse sentimento é coisa justa e perfeita, “Oh, quão bom e quão suave que os irmãos vivam em união” (Salmo 133).


Recordo meu avô contando uma eleição havida onde ele morava, em 2018, nunca antes nada parecido, a Democracia era palavra de Ordem, todos podiam ir e vir, falar o que bem entendessem, podiam até mesmo difamar e praguejarem contra irmãos, em especial os governantes, que utilizavam a internet de forma aberta, pregando o Progresso, para felicidade geral, mesmo com agressões mútuas, por temas diversos, e mais forte na política, essa era a real democracia.


Dois anos depois, houve um cataclisma ético e moral no país, acompanhado de uma pandemia viral se instalou no mundo, e a reboque, ressurgiram movimentos de ódio, preconceitos, xenofobia, e a população abriu mão de direitos constitucionais, e pasmem, a degradação do Estado de Direito se mostrou aflorada, e com isso houve a tão sonhada separação dos estados da federação. Assim como o movimento "DIRETAS JÁ!" que aconteceu nos meados de 1980, ressurgiu um movimento que se dizia representar o povo, para salvar nosso Brasil da corrupção, dos desmandos, descalabros, conchavos e todos malefícios causador por certos grupos políticos, movimento fortemente maniqueísta com a promessa do El Dorado.

Separar Já!!!


Como dizer que tal movimento não tinha razão? Afinal para que manter unido um País tão imenso, rico, de dimensões continentais e lindo por natureza, povo diversificado, cultura magnífica, entre tantos outros atributos, teríamos certamente países mais fortes, mais significativos, “arianamente” falando, levando em conta o princípio da unidade étnica, e assim, implantaram o Darwinismo Social tão sonhado por alguns “líderes modernos”, e alguns, com suásticas tremulando nos Panteões de algumas novas capitais, pois surgiram novos países.


A República Juliana, através de uma nova Revolução Farroupilha em simbiose com Guerra do Contestado, tal qual a época anterior, lema próprio como “Liberdade, Igualdade e Humanidade”, ao mesmo tempo em que surgiu o forte País dos Bandeirantes, imitado pelo GENSI (Grupo de Estudos sobre o Nordeste Independente), que revolvendo a Conspiração dos Suassunas, revolução dos Padres, entre outras, estabeleceu a República do Cariri, contemporânea as Minas Gerais Unidas, resplandecendo com uma nova Inconfidência Mineira, a Bahia States, que sozinha fez, sem nenhuma pressa, uma conjuração baiana atrelada a uma sabinada, a Confederação do Rio de Janeiro com sua conjuração carioca, e o restante..., corta daqui e dali, pronto ficamos com o Brasil, uma ilhota, cercada de outros "países aliados".


O Paraná se juntou ao Paraguai (já faziam fronteira), aproveitando as Cataratas do Iguaçu, a divisão de lucros foi melhor distribuída, o Amazonas e toda a rede amazônica, virou território mundial de livre circulação. Ninguém terá necessidade de defender aquele vasto território. Ainda estão tentando juntar a Amazônia Ocidental e a Oriental!!

Países com economias próprias, mas com livre comércio de importação e exportação, novos impostos entre fronteiras, mas com intercâmbio necessário e populações satisfeitas. O turismo incrementou!! Quem não quer passar férias no País vizinho? Curtir Bonito, cidade maravilhosa, Paraty, Pelourinho... Alguns países adotaram dialetos diferentes, mas dá pra se virar legal.


Foi um período duro, mesmo após guerrilhas urbanas sanguinolentas, disputas por territórios, indústrias e comércios destruídos, plantações, lavouras e criações dizimadas, a disputa por fontes de água eram homéricas, foram mais de 70 anos de disputas, sonhos perdidos, populações sofreram, algumas etnias sepultadas. Aproveitaram tanta pompa e circunstância que a separação trouxe para todos os envolvidos no evento, que logo surgiram novos heróis, que mantinham seus seguidores em uma causa que não era sua. Como dizia Bertolt Brecht: "Infeliz a nação que precisa de heróis."


Olvidaram os bons costumes, e levantaram muitos templos, nenhum à virtude, deixaram de cavar masmorras aos vícios para submeter suas paixões, e a hipocrisia reinou em preconceitos vulgares, totalmente contrários à Ordem da Razão.


Os livros contam que esse país já foi uma unidade, conforme a Constituição Federal de 1988 em seu art. 1º: "A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito"... Talvez essa seria a tônica do direito e da democracia à época, pois outros países praticavam movimentos separatistas, País Basco da Espanha, o Camarões do Sul de Camarões, o Tibet da China, Cabinda de Angola, a Chechênia da Rússia, a Palestina de Israel, entre outros.


Os livros foram remodelados, em especial ensino de Geografia Moderna e História com novas passagens, não seria necessário personagens como Dom Pedro I, Barão do Rio Branco, Campos Salles, Cônego Januário da Cunha Barbosa, Duque de Caxias, Frei Caneca, Joaquim Nabuco, Princesa Izabel, José Bonifácio de Andrada e Silva, Rui Barbosa, Marechal Deodoro da Fonseca, ainda, Maria da Penha, Zilda Arns, Maria Quitéria, Anita Garibaldi, Bertha Lutz, entre outros.


Por fim, com a mudança de valores, houve a extinção de uma sociedade discreta e reservada, de homens valorosos e de bons costumes, da qual meu avô fazia parte, mas que se dilacerou por força de cizânias, e utilização da mesma para fins políticos, causando a desunião entre seus pares.


Mas sinceramente, como seria bom experimentar a tal Democracia, aquela exaltada nos livros antigos, aquela que meu avô contava embriagado de paixão, aquela que as pessoas teriam verdadeiramente Liberdade, Igualdade e Fraternidade.