• Gilson Rodolfo Martins

QUEIMEMOS OS “BRUXOS”


“Não preciso que me digam de que lado nasce o sol, porquê lá, bate o meu coração”.


No último dezoito de julho, a opinião pública brasileira, sobretudo a paulistana, assistiu chocada um grave ato de vandalismo contra o seu patrimônio cultural. Um grupo de pessoas agiu mascarado, não como medida preventiva contra a pandemia do Corona vírus, mas covardemente com o intuito de ocultar suas identidades pessoais e as responsabilidades sobre sua ação criminosa, incendiando uma estátua memorialista do bandeirante, Borba Gato, instalada havia décadas na capital paulista.

Somente aqueles que possuem parcos conhecimentos de História do Brasil são capazes de ignorar o que o fenômeno do Bandeirismo implicou profundamente na formação territorial do Brasil ocidental, sobretudo dos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Por força do colapso do ensino fundamental e médio no Brasil, nos últimos vinte e cinco anos, não são poucos os que desconhecem essa realidade histórica. Pior do que isso, são os olhares anacrônicos de algumas áreas culturais da sociedade brasileira, inclusive em parte da chamada “grande imprensa”, frutos de extremismos ideológicos fermentados em redutos universitários, “intelectuais” e artísticos, autointitulados, “vanguardas” ou “resistência”.

O comportamento iconoclasta foi recorrente no passado e no presente de diferentes sociedades humanas como demonstração de posturas fanáticas, intolerantes com aqueles pensamentos distintos ou representações simbólicas do outro, isto é, a não aceitação da alteridade. Genocídios foram cometidos por impulsos etnocêntricos ou por paixões exacerbadas por identidades culturais. Os episódios concretos e históricos do aqui afirmado são muitos. Podemos citar, como exemplos, a destruição do Templo de Jerusalém, a cremação de mulheres acusadas de bruxarias e o martírio e cremação de cavaleiros Templários na Idade Média, a destruição da arquitetura Asteca e Inca na Idade Moderna, a explosão do Phaternon, na Grécia, pelos turcos no século XIX, o vendaval stalinista sobre a cultura pré-Revolução Russa, a dinamitação de uma estátua milenar de Buda pelo Talibã, a demolição de monumentos arqueológicos pelo Estado Islâmico na Síria e Iraque, a destruição de estatuas de lideranças confederadas nos EUA, agressões a imagens da Virgem por parte de alguns fanáticos evangélicos no Brasil, entre outros. Fatos como esses são as “pérolas” do pensamento egocêntrico, narcisista, infantilizado, xenófobo e extremista. São tentativas de apagar a historicidade dos acontecimentos reais e de substituir a verdade histórica por versões ideológicas autoritárias e totalitárias.

No episódio deplorável da estátua do Borba Gato, as justificativas alegadas pelos autores desse atentado são rasas. Afirmaram eles que visavam destruir a simbologia elitista do fenômeno histórico bandeirista e extirpar os mitos dos opressores de índios e negros. Alegação ridícula e, na verdade, falsa, negacionista da historicidade. Se verdade for, teremos que aguardar para breve que o Museu Imperial de Petrópolis seja incendiado, como também outros. Se assim for, também será alvo dessa avalanche iconoclasta e demolidora o monumento ao Bandeirante instalado no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, cujo autor é o escultor modernista, Vitor Brecheret. Talvez a prefeitura do município sul-mato-grossense, Bandeirantes, terá que promover um plebiscito para escolher um novo nome para essa área territorial.

Que esse crime contra a razão não fique impune!


Gilson Rodolfo Martins