• Gilson Rodolfo Martins

NOTÍCIAS DA PASSAGEM DE UM “COMETA” SOBRE O ORIENTE DO VALLE DO MÉXICO

Começarei este texto esclarecendo as aspas sobre a palavra cometa no título acima. Estive por alguns dias na Cidade do México participando de um evento científico, o Congresso Internacional dos Americanistas, que, no ano de 2015, realizou-se nessa cidade. Aproveitei essa oportunidade para conhecer um pouco sobre a Maçonaria desse país e visitar alguma Loja regular, com a qual o GOB mantém vínculos formais de reconhecimento mútuo. Foi assim que visitei a sede da Gran Logia Valle Del México, com abrangência maçônica sobre o Distrito Federal do México, à qual estão filiadas 357 Lojas regulares. Portador de uma carta de apresentação expedida pelo Grão-mestrado do GOB/MS, me dirigi aos dirigentes dessa Potência Maçônica sendo recebido fraternalmente pelo Muy Respetable Gran Maestro, Eduardo Atzayácatl Licona que, na ocasião, externou um TFA a todos Irmãos do Oriente de Mato Grosso do Sul, bem como convidou-me para trabalhar em uma das oficinas que atuam naquele complexo maçônico.

Assim, participei como visitante dos trabalhos da Loja Maçônnica Eliphas Levi, número 191, que adota o REAA – Rito Escocês Antigo e Aceito. É a partir deste ponto que terá início a explicação anunciada acima. Na tradição desse Oriente maçônico, existe a figura do irmão visitante de outras lojas, que, como no nosso Oriente, recebe um tratamento convencional pré-estabelecido, porém, quando o irmão visitante é oriundo de outro pais ou hemisfério ele é considerado mais que um visitante, e sim, um corpo sideral que está, naquele momento, circulando naquele horizonte celeste, disso decorre a figura simbólica do “cometa”. Entendem os irmãos desse Oriente que a passagem de um corpo celeste oriundo de orientes longínquos é longa e penosa, daí a necessidade de apoio e ajuda para continuar a trajetória astronômica de retorno ao Oriente de origem. Nessa linha de pensamento, a coleta do Tronco de Solidariedade, que circulou na sessão onde este “cometa” se fez presente foi integralmente doada ao mesmo para que, simbolicamente, receba os fluídos da fraternidade universal necessários à continuidade da “jornada estelar”.

Recebi fraternalmente a ajuda, porém, expus que, embora muito agradecido e respeitando essa singela demonstração de generosa hospitalaria, eu, por graça do Grande Arquiteto do Universo, não estava precisando, mas que aceitava me comprometendo a depositar a moeda cunhada ofertada integralmente no Tronco da próxima sessão em que estivesse presente em minha Loja.

Ainda durante os trabalhos dessa Loja Maçônica, recebi das mãos do Venerável, como mais um gesto de fraternidade maçônica, uma tela/pôster ilustrando a imagem do ex-presidente do México, Don Benito Juárez, um dos mais importantes fundadores e Grão-mestres da Maçonaria mexicana/americana, ofertada essa como símbolo da união indissolúvel da Maçonaria internacional aos obreiros da Loja Maçônica Generosidade e Amor, Oriente de Anastácio/MS, cujo quadro de obreiros eu integrava. Esse quadro, hoje, está exposto no mural dessa Loja e assim deverá ficar para sempre como uma reverência à memória desse valoroso Irmão mexicano. Nesse sentido, como reconhecimento e gratidão aos Irmãos mexicanos dessa Logia traduzi e faço publicar a seguir um texto referente ao significado e relevância histórica e maçônica de Benito Juárez.


Vigência do pensamento de Benito Juárez

Os povos fortalecem o espírito cidadão quando são conscientes de suas tradições e adquirem grandeza quando rendem homenagens ao espírito de seus antepassados, como o faziam os romanos ao evocar os seus lares (deuses domésticos, simbolizados por uma chama eternamente acesa no interior das casas - daí deriva a expressão “lar”). Comemorar é uma expressão sensível, representa uma das maiores dimensões humanas, porque significa render homenagens póstumas aos próceres que construíram o rosto e a alma da pátria mexicana, um desses rostos é o de Benito Pablo Juárez Garcia. Para os mexicanos, seu exemplo de vida, sustentado no esforço, na honestidade inquebrantável, na postura patriótica, na visão do futuro, segue marcando um caminho a seguir.

Em nosso país e em boa parte do mundo, paradigmas definidos por Benito Juárez, como o federalismo, o desenvolvimento democrático, o estado laico, a divisão de poderes, a defesa da soberania e a independência das nações, a não intervenção e a autodeterminação dos povos, a resolução pacífica dos conflitos e, sobretudo, a aplicação da legalidade e a retidão do estado de direito, são plenamente atuais. As dimensões de Juárez no tempo e no espaço, se ubicam na política e em sua imagem de estadista e, se pretendemos fazer uma distinção entre estes conceitos, diremos que, como político, Juárez sabia ganhar eleições legitimando-se ante o povo do México, com o consenso e com a consciência e, como estadista, uniu a geração liberal mais inteligente do México moderno e preparou as gerações que sustentariam a defesa da pátria e a manutenção da dignidade nacional.

As leis da Reforma são a expressão de uma inteligência que soube entender o contexto do tormentosos anos do século XIX, nos quais padeceu o México; para a sorte de nossa sociedade (sic) nacional, a justiça foi o valor que inclinou as mentalidades mais avançadas em nosso país a instrumentalizar a legislação da Reforma, sob três princípios que sempre direcionaram a prática de Juárez: a defesa da Constituição, a lei como postulado organizador do interesse público e a luta para que fosse o governo civil quem preservaria o interesse da nação.

Para quem se pergunta se o pensamento de Benito Juárez é vigente, basta recordar que nosso México, agora como antes, é um lugar de desigualdades econômicas e sociais, onde tanto o poder – de qualquer índole - como a pobreza, se ajustam com dificuldade ao cumprimento geral das normas legais e, por consequência, a igualdade ante a lei é mais um desejo, apenas, que um valor entre a cidadania. Há foros implícitos que promovem a impunidade, e existe um costume centenário de administrar a lei, NÃO aplicá-la.

O nosso é um estado de direito lamentavelmente débil, onde a lei é uma teia de aranha; como dizia José Hernandez, em Martim Fierro: “não tema o homem rico, nunca tema o que manda, pois a teia a rompe o bicho grande, na qual, só se emaranha os pequenos”. Em consequência, como o estado de direito não é confiável, a sociedade perdeu a confiança no governo. Por isso, que vemos continuamente os mecanismos da institucionalidade se deteriorar e a instabilidade e a violência são os mecanismos de pressão para lograr objetivos particulares a margem do direito.

Nesse contexto, recordar a vigência de Juárez implica, em princípio, recordar o papel central que tem na sociedade o império da lei. A submissão ante a mesma, tanto do cidadão como das novas corporações e monopólios, é uma condição necessária para o desenvolvimento da modernidade: se a lei não tem aplicação geral ou se carece de mecanismos expeditos de aplicação, ou se a utiliza para atiçar o confronto político, ou se se negocia a sua aplicação, então, a impunidade e a vingança se desenvolvem, a seguridade se enfraquece e a sociedade se debilita.

A vigência de Juárez o é também a de sua geração, com a que integrou o que agora se denomina uma classe política, a qual foi a que obteve logros substantivos para o interesse público. Quanto não faz falta uma classe política desse tipo, que defenda o interesse geral dos mexicanos dentro e fora do país; uma classe política que seja respeitada pelo reconhecimento de quem a integre, que sejam atores que lutem pelo interesse geral e porque eles mesmos estejam submetidos a lei; uma classe política que forme lideranças políticas que, como Juárez, se baseiem nas virtudes humanas e que por suas ações orientem a política ao interesse geral e a prestigiem.

Juárez mesmo é um exemplo vigente do que pode alcançar a educação. Uma educação útil tinha que ser, em seu tempo, laica, e no nosso também: laica, gratuita e de elevada qualidade em todos os níveis; uma educação que fortaleça os valores civis e sociais, que articule a cultura e a ciência para descartar fanatismos e impulsione o conhecimento para o bem estar; uma educação que nos ensine o passado sem maniqueísmos teleológicos, que elimine o sentido de discriminação social, que introduza os valores da tolerância; e por último, que impacte a relação ciência-produção.

A experiência mostra que viver respeitando e aplicando a lei tem sido um sonho social; sua falta de aplicação tem fundamentos culturais. Não basta que os princípios legais estejam consignados, com mais ou menos extensão, em diversos códigos políticos que tem o país, estes não têm podido, nem poderão arraigar-se à Nação enquanto que em seu modo de ser social se conservem os diversos elementos do despotismo, da hipocrisia, da imoralidade e de desordem que nos contrariam. São palavras de Juárez, palavras vigentes enquanto que muitos desses vícios ainda subsistem, e haverá que erradicá-los da forma de ser, forma egoísta de ser que arruína a pátria.

Em assunto de legalidade, mentem-se uma vigência específica porque poderia eliminar a crença de que se é justo, membros da sociedade podem atuar justiceiramente; dizia Juárez: “Qualquer plano que se adote, qualquer promessa que se faça, saindo-se da lei fundamental, nos conduzirá inevitavelmente à anarquia e a perdição da pátria, sejam quais forem os antecedentes e a posição dos homens que a ofereçam”. Portanto, a arbitrariedade não pode ser fundamento de governo, porque ela diminui a confiança nas leis, alija a população de seu respeito, porque faz parecer normal afetar com suas ações o direito de terceiros.

Benito Juárez sustentava que, seus esforços por defender a soberania e estabelecer a Reforma, valeriam se “todos os homens honrados e sinceros que, por fortuna, abundam, todavia, em nossa desgraçada sociedade, fossem recordados: esses homens desejavam o bem de sua pátria e faziam o quanto era possível para obtê-lo”. Cento e trinta e seis anos depois, podemos rememorar a esse homem como ele o esperava. Foi um patriota que teve uma vida convulsionada, repleta de infortúnios e cheia de privações, porém sempre teve a firme convicção de lutar pelo bem da nação, pelo bem geral, homem moral, que não enriqueceu com o exercício do poder e viveu legal e modestamente.

Nestes tempos modernos de vacilações ideológicas e políticas, o exemplo de Juárez cobra vigência, porque as leis da Reforma se lograram graças a essa visão e patriotismo, devemos admirá-la com resolução e firmeza, pois, sem as quais, teria sido impossível assentar as bases jurídicas do México Livre e Soberano. O pensamento liberal juarista significa para o país a força que forjou a estrutura e o modelo jurídico, político e social, que, segue tendo vigência e vigor na atualidade.

Hoje, como ontem, existem pequenos grupos, com grandes recursos econômicos, que, vivendo de rancores históricos, alimentam um falso entendimento da história sobre a vida e a obra de Don Benito Juárez, porém é evidente que a história tem dado a cada um seu lugar. Juárez vive e seu exemplo se estende com o caudal generoso em cuja onda floresce a esperança do melhor amanhã para os mexicanos. É um dever patriótico preservar, respeitar e divulgar a vida e a obra do colosso Guelatao.


BELLO, Martín Alberto Dávila. Tradición Masónica : Vigencia del Pensamiento de Juárez. in: El Poder de La Razón, ano 1, número 2,– Edición de Gran Logia Valle de México. verano 2008, Ciudad de México. Tradução de Gilson Rodolfo Martins.


Gilson Rodolfo Martins

Membro da Academia Maçônica de Letras de Mato Grosso do Sul

Cadeira 39 – Patrono Munir Bacha



1 Benito Juárez nasceu no interior do México, no início do século XIX, quando o México atravessava um período muito conturbado pela luta em prol da independência.

Filho de uma família indígena muito pobre, ainda pequeno ficou órfão e foi adotado por uma família de pequenos proprietários. Teve uma infância marcada pelo trabalho precoce e árduo, o que temperou sua personalidade no sentido da justiça social. Quando adolescente, estudou com muita dificuldade e com recursos provenientes de seu próprio esforço, conseguindo, posteriormente ingressar na vida universitária, onde cursou Direito. Formado, atuou no serviço público e na vida política onde engajou-se na luta pela expulsão de forças estrangeiras (francesas, americanas e espanholas) que, aproveitando-se da desorganização institucional reinante no período pós-colonial, invadiram o país. Graças a sua formação erudita, a sua intransigência nos ideais políticos, a sua coragem como homem e cidadão, ascendeu na luta política de reconstrução do estado mexicano livre e soberano, chegando a ocupar a presidência da república mais de uma vez. Foi um dos fundadores e construtores da Maçonaria mexicana onde atingiu o status Grão-mestre Geral. Sem dúvida foi um dos maiores maçons americanos e como tal pautou toda a sua existência e ação no mundo profano.